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Microplásticos das tábuas de corte de plástico: os números que o estudo não te conta

Publicado em 15 de maio de 20264 min de leitura
Microplásticos das tábuas de corte de plástico: os números que o estudo não te conta

Um estudo publicado na Environmental Science & Technology em 2023 contou as partículas libertadas pelas tábuas de corte de plástico. A estimativa é precisa: até 79,4 milhões de...

Um estudo publicado na Environmental Science & Technology em 2023 contou as partículas libertadas pelas tábuas de corte de plástico. A estimativa é precisa: até 79,4 milhões de microplásticos por ano se usares uma tábua de polipropileno. É o primeiro trabalho a quantificar sistematicamente a exposição alimentar desta fonte doméstica.

O plástico é normal na cozinha. Mas os números recentes reclassificam-no de utensílio neutro para veículo de exposição.

Quanto libertam realmente: dos 7 gramas aos 50 gramas por ano

O estudo de Yadav et al. (2023) testou tábuas de polietileno (PE) e polipropileno (PP), os dois polímeros mais comuns. Depois simularam o corte e recolheram as partículas libertadas.

O resultado: as tábuas de PP libertam mais massa e mais partículas do que as de PE. A diferença varia entre 5% e 60% em massa e entre 14% e 71% em número. A distribuição é dominada por partículas esféricas menores de 100 micrómetros. São invisíveis a olho nu e acabam diretamente na comida.

A exposição anual estimada para uma pessoa é de 7,4-50,7 gramas de microplásticos de tábuas de PE. Para o PP, a estimativa é de cerca de 49,5 gramas por ano. Em termos de número de partículas, falamos de 14,5-71,9 milhões para o PE e 79,4 milhões para o PP. São estimativas baseadas em pressupostos de uso doméstico standard.

Os dados preliminares de toxicidade do estudo não mostraram efeitos adversos na viabilidade de fibroblastos de rato expostos durante 72 horas. Mas 72 horas não são uma vida. E fibroblastos não são o intestino.

A falha no raciocínio: as tábuas novas não são imunes

Um segundo estudo, publicado na Food Additives & Contaminants em 2022 por Habib et al., comparou tábuas novas e desgastadas. As novas libertam menos partículas. Mas ainda assim libertam.

A mecânica é simples: a faca risca a superfície plástica e cada movimento arranca partículas. Uma revisão de 2024 na Heliyon (Snekkevik et al.) confirma que o stress mecânico durante o corte é o fator dominante de libertação. A tábua não precisa de estar velha. Basta cortares sobre ela.

O senso comum diz que se a superfície for lisa é segura. Os dados dizem que cada golpe de faca conta.

O que sabemos sobre a saúde: os primeiros dados em ratos

Yadav et al. (2023) testaram microplásticos de tábuas de corte em células in vitro. Não encontraram danos a curto prazo. Mas a ausência de evidência não é evidência de ausência.

Em 2025, Gan et al. publicaram na Environmental Science: Processes & Impacts um estudo em ratos expostos a microplásticos de tábuas de corte. Mediram inflamação intestinal e alterações do microbioma. É o primeiro trabalho a examinar os efeitos sanitários da exposição a esta fonte específica de microplásticos.

Os resultados sugerem que a exposição prolongada pode influenciar a barreira intestinal. Ninguém ainda replicou o estudo em humanos. A causalidade não está estabelecida. Mas a correlação está documentada.

Três formas de cortar sem adicionar plástico ao prato

Se quiseres reduzir a exposição, as escolhas mais simples são três.

  1. Substituir as tábuas de plástico desgastadas. O estudo de Habib et al. (2022) mostra que o desgaste aumenta a libertação. Uma tábua com cortes visíveis liberta mais partículas do que uma intacta.
  2. Usar tábuas de madeira ou bambu para alimentos ácidos ou quentes. Estes materiais não libertam microplásticos. E a ciência já as comparou: as tábuas de madeira têm perfis microbiológicos diferentes, mas não adicionam plástico ao prato.
  3. Evitar afundar a faca no plástico com força excessiva. O stress mecânico é o motor da libertação. Menos pressão, menos partículas.

Não tens de deitar tudo fora. Apenas tens de saber que o contacto plástico-faca-comida não é inerte.

A pergunta que o estudo deixa em aberto

As tábuas de corte de plástico libertam quantidades mensuráveis de microplásticos. A ciência tem os números. Mas ainda não tem a resposta definitiva sobre os efeitos a longo prazo na saúde humana.

Se 79 milhões de partículas por ano é a estimativa média para uma tábua de PP, a normativa sobre materiais em contacto com alimentos está pronta para regular também os utensílios de cozinha? Por agora, não existe um limite específico para a libertação de microplásticos das tábuas de corte.

A única forma de saberes o que acaba na tua comida é controlares os utensílios que usas. Ou fazeres com que alguém sem interesse em te esconder nada os controle.


Fontes citadas

  • Yadav H. et al., "Cutting Boards: An Overlooked Source of Microplastics in Human Food?", Environmental Science & Technology, 2023. DOI: 10.1021/acs.est.3c00924
  • Habib R.Z. et al., "Plastic cutting boards as a source of microplastics in meat", Food Additives & Contaminants: Part A, 2022. DOI: 10.1080/19440049.2022.2088113
  • Gan H.J. et al., "Simulated microplastic release from cutting boards and evaluation of intestinal inflammation and gut microbiota in mice", Environmental Science: Processes & Impacts, 2025.
  • Snekkevik V.K. et al., "Beyond the food on your plate: Investigating sources of microplastic contamination in home kitchens", Heliyon, 2024.